segunda-feira, 9 de julho de 2012

Até que ponto você é um Super-Homem?

Observação: Hoje é o aniversário do Cine 1895 e de uma pessoa muito especial que disse certa vez que aos 30 anos seria uma bela balzaquiana, disso eu não tinha a menor dúvida. Em outra ocasião mencionei que ela daria uma ótima mãe, e agora, minha amiga está grávida e certamente fará muito bem seu novo papel. Desejo que os próximos meses sejam tranquilos e que o bebê nasça com saúde, pois chegará com a sorte de ter alguém que irá cuidar dele com extremo carinho e dedicação, tenho absoluta convicção que estará em mãos esplêndidas que o transformarão numa pessoa digna em todos os sentidos. Parabéns e sucesso nessa fase de sua vida, minha querida amiga!!! Como eu sempre disse: “Você merece todas as felicidades do mundo”.   


Em Paz na Terra, o mais famoso personagem dos quadrinhos enfrenta o seu maior inimigo: a Humanidade.

Ainda que tenha iniciado minha experiência no universo dos quadrinhos lendo histórias de super-heróis, não sou fã do gênero. Com raras exceções, sempre que leio uma revista do tipo, fico com a impressão de um material desperdiçado, embora eu seja fascinado pela mitologia de alguns desses personagens. Superman é um exemplo clássico, visto em geral como uma criação fantasiosa (e para alguns até antiquada) que emite raios pelos olhos, possui força descomunal, invulnerabilidade e voa, esse ícone da cultura pop é muito mais complexo do que aparenta. Há quem diga que o Homem de Aço é uma analogia bíblica (o Pai que envia o Filho para a Terra) e outros afirmam que nada mais é do que a exposição camuflada da “ideologia norte-americana” (hipótese que discordo plenamente, pois do ponto de vista político, o herói não apoia guerras ou medidas agressivas que priorizam a desigualdade entre nações, muito pelo contrário), de todo modo, prefiro analisá-lo pelo prisma dos dilemas ou do que poderiam ser suas grandes dúvidas existenciais.  

Enxergo dessa forma: Único da sua espécie (essa versão mudou com o tempo, ele ficou sendo um dos últimos do planeta Krypton), ele foi encontrado e criado pelo casal Kent que lhe deu um nome, Clark jamais pôde ser uma criança normal brincando com as outras por motivos óbvios, ele poderia num simples movimento machucar gravemente alguém; nunca praticou esportes não só pelos riscos com relação ao contato físico, mas também por questões éticas (seria fácil vencer os oponentes com seus poderes); aprendeu que não poderia se envolver em brigas ou chamar atenção exacerbada para sua pessoa, ser coadjuvante não era uma opção, e sim, uma necessidade; o termo bullying (tão em voga ultimamente) poderia ser aplicado aqui, o herói sempre foi um alvo fácil por ser diferente, ter poucos amigos e manter segredos; perguntas como “Quem eu sou?” ou “O que devo ser?” comuns a qualquer jovem, assumiam dimensões inimagináveis; se a sua vida era cheia de limitações, nenhuma delas era tão assustadora quanto o medo da solidão, pois apesar de não ser imortal, Superman envelhece de forma incrivelmente lenta (e não adoece), o que significa dizer que irá viver para perder todas as pessoas que ama. E essa condição também fará com que Clark Kent seja um disfarce efêmero, a aparência jovem e a longevidade tornará impossível a permanência em um só local com a mesma identidade (já que não planeja revelar ser o Superman, pois impossibilitaria qualquer tentativa de ter um pouco de tranquilidade ou de possuir uma “rotina normal”), ele está condenado a ser um nômade.

Curiosidade: Se você acha ridículo o fato de ninguém associar Clark Kent ao Superman, pois considera que a diferença entre eles é apenas a roupa e os óculos (admito que também já pensei dessa forma), veja esse vídeo!   

Super-Homem: Paz na Terra é uma daquelas exceções que falei no início do texto, lançada em 1998, trata-se de uma edição comemorativa por conta dos 60 anos do personagem (a primeira aparição ocorreu na Action Comics em junho de 1938), escrita por Paul Dini e desenhada por Alex Ross, a revista parte de uma premissa inusitada: O que aconteceria se o Homem de Aço decidisse acabar com a fome no mundo?

Do que adianta uma boa intenção?

Logo na abertura, a obra faz uma bela homenagem aos criadores do personagem, texto e arte remetem à primeira página feita por Jerry Siegel e Joe Shuster que é um resumo da vida, das peculiaridades e da essência altruísta do herói. Contudo, os autores vão além da referência, já no início estabelecem o tom introspectivo da história que é narrada pelo próprio Superman, os quadrinhos introdutórios escapam da mera síntese e assumem a condição das memórias do personagem. Dini destaca o papel das experiências na formação moral, gradativamente saímos do extraordinário para aspectos palpáveis a qualquer pessoa, por exemplo, a amizade entre pai e filho que aqui ganha uma dimensão fundamental, pois é ideia consolidada no universo das HQs de que tenha sido Jonathan Kent – um homem de extrema retidão e senso de justiça – o responsável por moldar o caráter do filho adotivo. Mencionando tal relação como uma das lembranças mais vívidas de Clark, o escritor humaniza o personagem e cria um vínculo com o leitor que passará a aceitar com maior naturalidade o enredo e o protagonista. Esse conceito encontra respaldo na maneira como Ross ilustra os quadros, utilizando um sépia que denota as reminiscências, o desenhista acrescenta raios que iluminam as figuras como se desejasse explicitar que aquelas cenas são cheias de calor humano. Para os aficionados é possível dizer que existe um simbolismo ainda maior, basta lembrar que as qualidades excepcionais do Super-Homem são oriundas do Sol amarelo que afeta diretamente sua fisiologia (em Krypton, o Sol era vermelho e os habitantes normais), então, os raios incidindo sobre imagens ressaltando a trajetória, os ensinamentos e o contato familiar teriam significado condizente com o restante da trama: o maior de todos os poderes é o aprendizado.  
Negócios de Família: Jonathan ensina o pequeno Clark.
Negócios de Família: Jonathan ensina o pequeno Clark.

Assumindo claramente o formato de fábula, Paz na Terra é desde o início uma grande lição de moral, a história começa durante as festividades natalinas quando o Super-Homem tradicionalmente prepara uma gigantesca árvore que abre oficialmente as comemorações (qualquer semelhança com a famosa árvore do Rockefeller Center não é mera coincidência, Metrópolis é inspirada em New York), mas desta vez algo de diferente acontece, ele identifica no meio da multidão uma garota quase desmaiada, rapidamente a coloca nos braços e percebe que aquilo é um caso de desnutrição. Esse é o estopim para uma crise de consciência que poderia ser definida pela pergunta: O que de fato tenho feito para ajudar o mundo? Uma reflexão com censuras ao nosso comportamento e indiferença social, somos tachados pelo herói como materialistas, mesquinhos e cheios de necessidades supérfluas, ele chega até a citar uma frase de Charles Dickens que afirma o quanto tornamos falsa a mensagem natalina, aliás, o escritor inglês é responsável pelo clássico Um Conto de Natal, mas ao contrário daquela obra em que o egoísmo era concentrado no protagonista (que representava muitos de nós), aqui todos somos abertamente um pouco do velho Scrooge.  

Apesar do senso crítico apurado, Superman é um idealista, pensa que um bom exemplo é capaz de mudar o rumo das coisas, o pensamento pessimista cede espaço para a crença de que também somos dotados de generosidade, afinal de contas, que destino ele teria tido se não fosse a bondade dos Kent? Por isso, ao invés de usar sua força para dominar o planeta, o herói segue os ensinamentos dos pais adotivos, ajudar o próximo é uma maneira de oferecer algum sentido a sua existência.
O Veredicto: Superman vai ao Congresso dos
EUA como embaixador de uma causa nobre. 

Embora não saiba como é estar com fome (seu metabolismo não necessita de alimentos), isso não o impede de sentir pena das pessoas que enfrentam essa terrível mazela. Fazendo alusão ao Bom Velhinho, Superman decide voar pelo globo usando apenas um dia para distribuir o presente que julga mais útil. Acreditando que sua ação irá desencadear uma campanha solidária, o Homem de Aço parte do princípio que existe comida suficiente para alimentar toda a população mundial, dessa forma, resolve ir ao Congresso americano para discutir o assunto. Percebendo que as medidas oficiais nada mais são do que promessas cheias de entraves, ele apresenta soluções alternativas, nas palavras do protagonista: “A América produz mais comida do que consome, mas não cria os meios para transportá-la até os famintos”. Tudo que ele precisa é de uma autorização para fazer esse transporte.

De modo a não restringir os obstáculos da tarefa, Paul Dini toma a decisão de excluir vilões tradicionais como Brainiac, Apocalipse, Darkseid, Bizarro, General Zod e o arqui-inimigo Lex Luthor (pessoalmente, o encaro como uma síntese do poder nocivo das megacorporações), o mesmo pode ser dito sobre o fato de não incluir personagens como Perry White, Lois Lane ou Jimmy Olsen que poderiam desviar a atenção para análises secundárias. Nessa parte da narrativa, nenhum indivíduo é identificado pelo nome, o que serve para caracterizar a homogeneidade da culpa, pois na visão dos autores, um ditador que oprime seu povo ou o sujeito que se mostra indiferente ao sofrimento alheio, eles fazem parte do mesmo cenário e das suas consequências globais.

Antes que alguém diga que o governo americano é retratado de forma benevolente, o sinal verde dado ao protagonista apenas revela a burocracia e inércia dos Estados Unidos diante de problemas que estão além de suas fronteiras e pelos quais muitas vezes tem uma parcela de responsabilidade, sem mencionar que a revista ainda acusa o país de uma péssima distribuição de renda, a imprensa de sensacionalismo e a população de consumista, voltada ao desperdício e desconfiada de boas atitudes. Em resumo, são essas características que definem a mensagem principal da HQ, assumindo particularidades em cada lugar que o personagem for, a ideia que prevalece é a de que as pessoas estão mais preocupadas consigo mesmas e são incapazes de sair de sua zona de conforto, há uma descrença generalizada no próximo e quase tudo é visto com segundas intenções.

ATENÇÃO: Não passe desse ponto se você ainda não leu a revista. Abaixo, analiso alguns aspectos cruciais da narrativa.

O roteiro ao não isentar ninguém, evita cair na armadilha de fazer uma divisão entre mocinhos e bandidos que enfraqueceria a relevância da mensagem. Adotando um arco dramático crescente, a jornada do personagem se inicia de forma otimista e aos poucos percebemos o quanto ele subestimou as possíveis ameaças, muito mais pela vontade de acreditar que somos capazes de mudar do que por ingenuidade, ele mesmo se questiona: “Será mesmo que achei que daria certo? Sabendo o que sei da natureza humana, por que acreditaria que todos aceitariam de boa vontade o que eu tinha a oferecer?”

E o principal objetivo da obra é discutir nossa visão míope diante de um assunto que geralmente é analisado de forma simplória. A fome não é apenas uma questão de distribuição, de crises financeiras, desastres naturais ou má vontade política, mas é um elemento eficaz na manutenção de pessoas no poder que a utilizam como ferramenta de submissão das massas, sendo que a moeda de troca para amenizá-la são votos, mão-de-obra barata, além de ser uma semente que incita o ódio e inicia guerras que como sabemos são negócios lucrativos para determinados grupos (e nações). Reduzir o homem à condição de somente lutar para suprir uma necessidade orgânica, é rebaixá-lo a um patamar primitivo, já que o ser humano tem “fome” de várias coisas. É uma violência institucionaliza em nível físico e psicológico que acaba vitimando uma geração após a outra, exterminando a dignidade e roubando a identidade de um povo. 

Entretanto, mais triste ainda é constatar que as relações em um mundo globalizado são afetadas por “ingredientes” (tradições, cultura e religiões) que deveriam motivar o orgulho pela diversidade e servir como partilha, e acabam se transformando em armas que distanciam e aumentam rivalidades históricas em um jogo de interesses. São barreiras intransponíveis que tornam a missão do Superman em algo utópico, e pior, a atitude é encarada como invasiva e desrespeitosa. Que fique claro que sua “intromissão” nada tem a ver com política ou economia que geralmente são a justificativa disfarçada de governos e organizações internacionais para intervir em assuntos alheios, a única intenção do protagonista é promover uma mudança de pensamento. Infelizmente, é esse aspecto que oferece tragédia e ironia ao enredo, pois o que existe de mais ficcional na história não é o fato do personagem principal ser alguém que voa e solta raios pelos olhos, e sim, a fé que ele deposita em nós e a esperança de que poderíamos entender sua mensagem. O alienígena é o mais humano de todos e quem melhor compreende o valor da vida.      

Nesse sentido, o trabalho do desenhista Alex Ross é excepcional. Primeiro ao conferir realismo as imagens de tal maneira que possamos nos identificar mais facilmente, já que um desenho estilizado ou abstrato poderia sabotar as intenções emocionais da história, ao invés disso, resolve mostrar com detalhes as expressões e até as rugas nas figuras, evitando uma plastificação dos rostos que ofereceria artificialidade. Novamente, a decisão de excluir vilões conhecidos com seus visuais espalhafatosos ajuda bastante na intencionalidade de abordar o real. O mesmo pode ser dito sobre o uso dos demais objetos e dos ambientes que parecem ter uma textura, as cenas na grande maioria das vezes possui um interessante trabalho de profundidade de campo. O próprio Superman não escapa desse objetivo, a sua anatomia e a sugestão de movimentos são cuidadosamente estudados para que possam soar mais naturais, no entanto, há um zelo em não desfigurar as posições emblemáticas que são retratadas aqui de maneira muito elegante, afinal, é uma obra que homenageia a própria trajetória do herói e faz referências aos artistas que consolidaram o personagem.   

Também é válido destacar que a disposição dos quadrinhos difere a cada página, assumindo um formato pouco convencional que exclui algumas vezes as linhas divisórias do quadro a quadro, elimina os balões de fala, abre “janelas” no canto de páginas e coloca imagens sobrepostas que enfatizam detalhes que dão ritmo as transições e dinamismo à leitura. E até mesmo quando surgem gravuras amplas e contemplativas, elas são adequadas ao texto de Paul Dini que é pautado em reflexões que exigem em certos instantes uma pausa para que o leitor possa pensar sobre o assunto, e principalmente, senti-lo sem parecer melodramático.    

Mas a arte de Ross vai além desses quesitos, tornando-se fundamental ao estabelecer a atmosfera da trama e o estado psicológico do protagonista que é também o narrador, portanto, o ótimo uso de cores e escalas oferece sentido à percepção do herói, configurando simbolismo ao enredo. Perceba como os autores invertem nossas expectativas já no início quando as festividades natalinas não representam alegria, e sim, um período de incoerências. A neve que cai, apenas ressalta uma paleta de cores tristes que pinta a cidade e que ilustra os pensamentos melancólicos do personagem principal, e mesmo quando surgem outras tonalidades, elas são sempre apagadas. Em determinado momento quando grupos de pessoas aparecem rindo, o uso quase monocromático ou às vezes a dessaturação da paleta deixa evidente o intuito de estabelecer aquilo como algo sem graça, ainda mais se considerarmos que a montagem dos quadrinhos faz uso de cenas opositivas focadas em uma pergunta: “Como é possível ignorar o sofrimento alheio?”

Conforme a narrativa avança, notamos que as cores do Superman tornam-se mais vivas, exemplificando a mudança do seu estado de espírito. Ele aparece imponente em imagens que consomem páginas inteiras, sempre com o semblante iluminado, o que representa sua esperança em inspirar outros a seguir seu exemplo. Todavia, os elementos ao seu redor continuam com uma coloração fraca como se deixasse claro que o personagem não está querendo enxergar o óbvio. À medida que o tempo passa, o herói vai mudando sua percepção quando ele deixa de olhar o indivíduo (as imagens mostravam fisionomias detalhadas, significando que cada pessoa tem importância) para ver apenas a massa homogênea onde não importa quem é quem (as figuras são vistas embaçadas e sem rosto, em resumo, todos estão condenados), culminando no ponto em que ele mesmo é mostrado borrado, pequeno, insignificante e derrotado, confrontando a ideia antes exposta de um “Deus” que chega dos céus com a solução.  
Deuses Vencidos: Atingido por mísseis, Super-Homem lamenta
a comida que foi envenenada e transformada em cinzas.

A DC Comics jamais permitiria que a HQ comemorativa dos 60 anos do Homem de Aço tivesse um fim tão melancólico, e de fato seria um erro por contrapor a natureza do personagem que é baseada em nunca desistir. Contudo, Paul Dini e Alex Ross (ambos são responsáveis pelo o argumento do texto) compreendem que um final plenamente feliz seria cair em um equívoco semelhante. Por isso, eles concluem a revista retomando os ensinamentos de Jonathan Kent, o que torna genial a estruturação do roteiro ao criar uma delicada e singela metáfora que de certa forma faz uma ponte entre o passado, o presente e o futuro da humanidade. Como disse Benjamin Franklin: “É possível que o ser humano viva sozinho, mas não creio que isso seja Felicidade”. O protagonista compreende que mudanças não podem ser abruptas e que leva tempo para a transformação da consciência, sendo que tanto Clark Kent como o Superman possuem um valor igual no processo de redenção.

Desistir não é o caminho como ensinou Christopher Reeve, o homem que vestiu em quatro oportunidades a capa vermelha.  

Enquanto isso...
De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), cerca de 925 milhões de pessoas sofrem com a fome ao redor do planeta. Enquanto isso, países como os Estados Unidos, China e Rússia anunciam orçamentos exorbitantes para o setor de armas nucleares, o relatório British American Security Information Council (Basic) diz que só os americanos gastarão 700 bilhões de dólares na próxima década. Estima-se que a Guerra no Iraque tenha custado (somados os impactos à economia) 3 trilhões de dólares aos cofres norte-americanos, sem esquecer os milhares de soldados mortos e feridos das tropas de coalizão. A ONG Iraq Body Count (IBC) com sede na Grã-Bretanha, afirma que aproximadamente 100 mil iraquianos perderam suas vidas durante o conflito (outras pesquisas apontam números ainda mais elevados).


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